A Pardalização
Entre o olhar do Outro
e a imagem de si,
o sujeito negro aprende cedo
a ocupar um lugar de suspensão.
Nem autorizado a existir plenamente,
nem autorizado a nomear a violência.
“Pardo.”
Significante ambíguo,
zona de negociação racial,
promessa silenciosa de afastamento da negritude.
A pardalização opera assim:
não necessariamente apagando o corpo,
mas produzindo distância subjetiva dele.
O sujeito passa a habitar a própria pele
como quem ocupa território estrangeiro.
No trabalho,
o reconhecimento nunca chega inteiro.
Há sempre uma suspeita antecipando sua fala.
Um excesso de vigilância.
Uma exigência de desempenho
que não recai sobre todos os corpos da mesma forma.
Então o eu se organiza em alerta.
O corpo calcula.
A voz mede.
O desejo hesita.
Paralização não como ausência de movimento,
mas como defesa diante de um real incessante.
Porque o racismo não atravessa apenas a estrutura social.
Ele produz marcas narcísicas,
fraturas na imagem,
rachaduras na possibilidade de pertencimento.
E talvez uma das violências mais sofisticadas
seja fazer o sujeito acreditar
que sobreviver depende de afastar-se de si mesmo.
Na clínica, algo insiste.
Dar nome às coisas.
Não para capturar totalmente a dor,
mas para deslocá-la do campo do indizível.
Racismo.
Hipervigilância.
Desvalorização.
Desconfiança do homem negro.
Solidão racial.
Quando o sujeito fala,
o sintoma deixa de ocupar sozinho o corpo.
E aos poucos surge uma questão:
o que significa tornar-se negro?
Não apenas ser identificado como negro pelo olhar social,
mas poder subjetivar essa experiência
sem reduzir-se à violência que a atravessa.
Tornar-se negro talvez seja interromper a lógica do apagamento.
Sair da promessa de neutralidade contida na pardalização.
Reconhecer que existe uma história inscrita no corpo
e que ela não precisa ser vivida apenas como condenação.
Há um mar na subjetividade negra.
Um mar feito de memória,
ancestralidade,
medo,
sobrevivência
e invenção.
Cada território produz uma experiência singular da raça.
Não existe uma negritude única.
Existe o modo como cada sujeito negocia, sofre, recusa e reinventa
o lugar onde foi colocado pelo Outro social.
A análise talvez seja esse espaço
onde o sujeito pode se aproximar de si
sem precisar se defender o tempo inteiro da própria imagem.
Ficar mais confortável dentro da própria pele
não como reconciliação idealizada,
mas como possibilidade de habitar o corpo
sem desejar permanentemente escapar dele.
E há algo profundamente analítico
em sustentar o não saber.
Não saber completamente quem se é
para além das marcas do racismo.
Não saber qual corpo teria emergido
sem o trauma colonial.
Não saber
e ainda assim continuar falando.
Porque, às vezes,
o início do desejo
aparece exatamente no ponto
em que a pardalização perde consistência
e o sujeito começa, finalmente,
a tornar-se negro.
14 de Maio

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