Ser Ricardo
Às vezes, ser eu parece um trabalho de tempo integral sem direito a intervalo. Ser negro é aprender cedo que existir também pode ser uma negociação. Negociar o corpo, a roupa, o olhar, a fala, o silêncio. Aprender quando ser gentil e quando ser malandro. Quando responder, quando observar. Quando passar despercebido e quando ocupar o espaço inteiro. Porque esperam que eu seja adulto. Que eu saiba o que fazer. Que pense no futuro. Que tenha planos. Que seja responsável. Que não erre demais. Que não desabe na frente dos outros. Como se crescer fosse abandonar para sempre o menino que ainda pergunta: “E quem cuida de mim?” Eu penso no futuro porque me ensinaram que sobreviver não basta. É preciso construir. E talvez essa seja uma das minhas maiores cansativas contradições: eu penso demais e ainda assim preciso agir rápido. Ser inteligente. Sagaz. Atento. Perceber antes. Entender antes. Antecipar. Ser rápido. Ser eficiente. Resolver. Como se todo problema ao meu redor fosse uma prova e eu t...


