A Rua que Ainda Mora em Mim
Quando a vida aperta, eu às vezes esqueço de quem aprendeu a viver antes de aprender a explicar. Aí fico adulto demais. Analiso o problema, antecipo a tragédia, crio cenário, hipótese, diagnóstico. E esqueço do moleque. O moleque não tinha tanta teoria sobre o tamanho do buraco. Ele olhava. Dava uma tragada na vida. E pensava: “Alguma coisa a gente desenrola.” E desenrolava. Porque antes de aprender a escutar o inconsciente, eu aprendi a escutar a rua. A rua fala baixo. Nos olhos de quem se aproxima. No silêncio de quem promete demais. Na esquina onde não é hora de parar. No momento em que você entende que avançar é coragem e recuar também pode ser inteligência. Foi ali que eu aprendi que nem toda malandragem é maldade. Às vezes, é só o nome que a sobrevivência recebe quando veste roupa bonita. Eu era gente boa. Mas não era bobo. Sabia fazer amizade, puxar conversa, chegar nos lugares. Tinha sempre alguém para ligar, uma história para contar, uma ideia atravessada, um contato improváve...



