Amor e afeto entre a falta e o desejo
Eu penso o amor menos como abrigo e mais como travessia. Amar, para mim, nunca foi sobre completude. É sobre saber fazer com a falta, com aquilo que não cessa de não se inscrever por inteiro. O desejo nasce aí, nesse intervalo onde algo escapa, onde o outro nunca pode ser totalmente sabido, possuído ou decifrado. Eu não amo a partir de uma plenitude. Amo a partir das minhas faltas, das marcas que me constituem, dos restos que insistem, das perguntas que não se resolvem. Há sempre algo do inconsciente atravessando o amor, algo que fala para além do que eu digo. E talvez por isso eu goste de pensar o amor como chuva. Porque amar na chuva é consentir em se molhar. É não buscar um teto para escapar do risco, mas reconhecer beleza justamente no que desorganiza. A chuva não pede controle. Ela cai. Ela atravessa. Ela toca o corpo. Há amores que chegam como tempestade, deslocam certezas, desarrumam defesas. Há outros que caem finos, como garoa persistente, e vão ocupando o sujeito sem alarde. ...






