Entre a Falta que Seduz e a Presença que Assusta
Há sujeitos que sabem desejar, mas não sabem habitar o encontro.
Movem-se pela falta, alimentam-se dela, fazem dela a bússola de seus afetos.
O que está distante fascina. O que escapa encanta. O que não se alcança mantém o desejo vivo.
Na ausência, tudo pode ser. Na fantasia, nada falta.
Mas o amor real não se sustenta apenas no desejo. Ele exige a travessia da idealização. Exige o encontro com a alteridade, com aquilo que no outro não corresponde ao que imaginamos.
E é aí que muitos recuam.
Porque o outro concreto não é o objeto sonhado. Não cabe inteiro na fantasia. Não responde perfeitamente às demandas de amor. Não preenche o vazio estrutural que cada sujeito carrega.
Deseja-se aquilo que falta, mas sustentar aquilo que se possui implica renunciar ao amor ideal.
Implica reconhecer que nenhum encontro é capaz de apagar a incompletude humana.
Há quem passe a vida repetindo o mesmo roteiro: investe no impossível, foge do possível, confunde intensidade com amor e ausência com desejo.
Ama mais a promessa do que a presença. Mais a espera do que o encontro.
Como se a falta fosse mais suportável do que a responsabilidade de amar.
Porque amar não é fundir-se ao outro. Não é encontrar a metade perdida. Não é alcançar uma completude mítica.
Amar é consentir que o outro permaneça outro. É sustentar um laço sem garantias. É permanecer mesmo depois que as idealizações caem.
Porque possuir é perder a fantasia.
E talvez a maior ironia seja esta:
algumas pessoas passam tanto tempo perseguindo aquilo que lhes falta, que não percebem o valor daquilo que possuem.
Quando finalmente olham para trás, já não encontram o amor que deixaram partir, apenas a lembrança dele.
E, em datas como o Dia dos Namorados, quando os encontros celebram a presença e os afetos ganham memória, alguns se veem diante daquilo que passaram anos tentando evitar: a constatação de que o vazio nem sempre nasce da falta do que nunca se teve, mas da perda daquilo que um dia esteve ao alcance das mãos.
Porque o amor verdadeiro não nasce daquilo que falta, mas daquilo que permanece quando a fantasia termina.
E há perdas que só se tornam compreensíveis quando já não podem mais ser reparadas.
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