O Medo da Falta
Não é o outro que assusta quando parte.
É a falta que desperta antes mesmo da despedida.
O sujeito inventa permanências, como quem tenta costurar o rasgo que o desejo insiste em abrir.
Mas ninguém ocupa o lugar daquilo que nunca teve nome.
Chamamos de medo de perder alguém aquilo que, tantas vezes, é o medo de reencontrar o vazio que nos constitui.
A ausência não começa quando o corpo vai embora; ela nasce no instante em que descobrimos que nenhuma promessa é capaz de abolir a falta.
Porque envolver-se não é prender o outro, nem fazer dele abrigo contra o próprio vazio.
É consentir que o outro permaneça outro, e que entre um olhar e outro haja sempre um intervalo onde o desejo respira.
Quem teme perder, por vezes, não teme o fim do encontro.
Teme o retorno da pergunta que o outro silenciava:
o que me falta?
E talvez seja essa a mais íntima verdade da existência:
a falta não é um acidente do caminho.
É o lugar de onde o desejo nasce.
Perder alguém dói.
Mas é o encontro com aquilo que nunca pôde ser preenchido que faz o sujeito atravessar o luto, desfazendo certezas para que um desejo menos cativo possa, enfim, encontrar seu próprio destino.
E se um dia a tua falta vestir-se de saudade e chamar isso de retorno,
que o silêncio te responda o que minhas palavras já não precisavam dizer.
Porque há encontros que terminam quando deixamos de ocupar o lugar daquilo que o outro queria apenas para não se haver com a própria falta.
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