A Rua que Ainda Mora em Mim

Quando a vida aperta,

eu às vezes esqueço

de quem aprendeu a viver antes de aprender a explicar.


Aí fico adulto demais.


Analiso o problema,

antecipo a tragédia,

crio cenário, hipótese, diagnóstico.


E esqueço do moleque.


O moleque não tinha tanta teoria

sobre o tamanho do buraco.


Ele olhava.


Dava uma tragada na vida.


E pensava:


“Alguma coisa a gente desenrola.”


E desenrolava.


Porque antes de aprender a escutar o inconsciente,

eu aprendi a escutar a rua.


A rua fala baixo.


Nos olhos de quem se aproxima.

No silêncio de quem promete demais.

Na esquina onde não é hora de parar.

No momento em que você entende

que avançar é coragem

e recuar também pode ser inteligência.


Foi ali que eu aprendi

que nem toda malandragem é maldade.


Às vezes,

é só o nome que a sobrevivência recebe

quando veste roupa bonita.


Eu era gente boa.


Mas não era bobo.


Sabia fazer amizade,

puxar conversa,

chegar nos lugares.


Tinha sempre alguém para ligar,

uma história para contar,

uma ideia atravessada,

um contato improvável

e disposição demais para aceitar

que alguma coisa simplesmente não tinha jeito.


Porque sempre tinha um jeito.


Ou pelo menos

a gente inventava um.


As letras que atravessaram minha adolescência

já sabiam disso.


Falavam de queda

sem transformar a queda em identidade.


Falavam de amor

sem vender a mentira

de que amar protege alguém do mundo.


Falavam de seguir.


E talvez eu tenha aprendido ali

que perseverar não é ser invencível.


É apanhar da vida

sem entregar para ela

o direito de decidir quem você vai ser.


Hoje eu estudo.


Tenho palavras difíceis

para coisas que antigamente

eu resolvia no improviso.


Posso falar de repetição.


De desejo.


De falta.


Mas, sendo sincero,

tem dia que a melhor interpretação

vem daquele moleque

que ainda mora em mim.


Porque ele olha para os meus problemas atuais

e dá risada.


Não por achar fácil.


Mas porque já viu coisa pior.


Ele lembra das vezes

em que não havia dinheiro,

não havia garantia,

não havia plano.


E ainda assim havia movimento.


Havia amigo.


Havia rua.


Havia conversa.


Havia uma coragem meio inconsequente

que, olhando de longe,

talvez fosse apenas desejo

se recusando a morrer.


Eu aprendi a encantar pessoas.


Mas também aprendi a decepcioná-las

quando precisava me escolher.


Aprendi a amar.


E a não deixar que o amor

virasse autorização para me apagar.


Aprendi a ser educado.


E, quando necessário,

a ser escroto.


Porque maturidade nenhuma

obriga um homem a ser gentil

com quem só entende violência.


Há uma parte de mim

que continua observando tudo.


Quem fala demais.


Quem chega quieto.


Quem quer alguma coisa.


Quem está perdido.


E quando é a hora.


Principalmente quando é a hora.


Talvez seja isso que os anos

não conseguiram arrancar de mim:


eu posso até pensar demais,

mas ainda sei sentir

quando chegou o momento de agir.


Então, quando a vida me coloca contra a parede,

eu tento não esquecer:


eu não cheguei até aqui

porque sempre soube o que fazer.


Cheguei porque, muitas vezes,

não sabia porra nenhuma

e fui mesmo assim.


E talvez o adulto que hoje procura respostas

precise apenas sentar um pouco

ao lado daquele adolescente

e perguntar:


“E aí, como é que a gente sai dessa?”


E ele, provavelmente,

vai rir da minha ansiedade.


Vai olhar para a rua.


Olhar para mim.


E responder:


“Calma.

Observa.

Conversa.

Vê quem tá contigo.

Espera a hora.


E, quando for preciso,

a gente desenrola.”

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