Entre Caminhos Abertos, Mira Longa e Ferro Firme

Nunca aceitei o rótulo da queda.

Aprendi cedo a caminhar em silêncio,

a deixar que confundam meus gestos,

porque nem toda força precisa ser anunciada.

Enquanto tentam me medir por fora,

algo em mim se afina por dentro.


Há uma energia que inaugura caminhos,

que move o que estava travado,

que ensina que toda travessia começa

quando alguém tem coragem de pisar primeiro.

É ela que desorganiza o medo

e faz do passo um começo.


Depois, vem a mira longa.

O olhar que atravessa a mata fechada

sem se perder do próprio norte.

A paciência vira estratégia,

o silêncio vira leitura,

e o sonho aprende a esperar o tempo certo

para ser alcançado.


Em seguida, o corpo aprende o equilíbrio.

Entre doçura e precisão,

entre correnteza e firmeza,

descubro que desejo também se educa.

Nem excesso, nem falta 

movimento consciente,

beleza que não se dispersa.


Então o ferro se apresenta.

Não como ameaça,

mas como fundamento.

Ele ensina a sustentar,

a cortar o que atrasa,

a transformar vontade em direção.

Aqui, o avanço ganha responsabilidade.


E eu não caminho sozinho.

Há presenças que me cercam,

há forças que me escolhem,

há gente por mim.

Sou guardado por vínculos,

amparado por mãos visíveis e invisíveis,

sustentado por quem acredita

mesmo quando eu ainda estou me fazendo.


Há um gesto silencioso

que acalma a cabeça e organiza o pensar.

Um cuidado que realinha o destino,

fortalece o centro,

e devolve clareza ao caminho.

O que estava disperso se assenta,

o que pesava se suaviza,

e o corpo aprende a seguir com mais firmeza.


Dentro de mim cresce um chamado antigo:

o desejo de sustentar o sagrado com presença,

de aprender o ritmo,

de respeitar o tempo,

de servir com dignidade.

Não para aparecer,

mas para firmar o chão,

cuidar do que é coletivo,

honrar o silêncio e o toque do tambor.

Um sonho que não grita,

mas insiste.


Algo se desfaz.

Não em ruína,

mas em passagem.

A cabeça se aquieta,

o corpo se alinha,

e o que era antes já não dá conta

do que pede para nascer.


Renascimento não é espetáculo.

É transformação silenciosa,

feita de entrega, disciplina e travessia.

Que pensem o que quiserem.

Eu sigo 

não para provar,

mas para me tornar.




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