Equilibristas
Não há equilíbrio.
Há equilibristas.
A vida não se apresenta como promessa de repouso.
Ela chega em descompasso,
abre fendas,
desorganiza certezas
e segue andando, mesmo quando a gente pede pausa.
O sujeito nasce já em falta.
Nunca inteiro.
Nunca fechado em si.
Algo sempre escapa,
algo sempre falta,
e é desse buraco que brota o movimento,
o desejo,
a insistência em continuar.
O sonho do equilíbrio absoluto
é, muitas vezes, um pedido de anestesia:
que tudo pare de doer,
que o conflito cesse,
que o coração encontre uma forma final.
Mas não encontra.
Porque viver não é resolver.
É sustentar.
Sustentar o que não se encaixa.
Sustentar o excesso e a ausência.
Sustentar aquilo que retorna,
mesmo quando juramos que já passou.
Viver é lidar com o impossível
sem a ilusão de vencê-lo.
É inventar um jeito próprio
de caminhar sobre o fio,
sabendo que ele treme
e que não há rede invisível prometida.
Cada um se equilibra como pode:
fazendo sintomas de abrigo,
transformando escolhas em apoio,
criando repetições que, embora doam,
também sustentam a existência.
O que chamamos de “problema”
muitas vezes é solução.
Uma solução precária,
improvisada,
mas viva.
Não há defeito em tropeçar no mesmo ponto:
há história,
há marca,
há tentativa de manter-se de pé
com os recursos disponíveis.
O amor, então, não vem para completar.
Vem para desorganizar ainda mais o arranjo,
para tocar onde falta,
para convocar o sujeito
a refazer seu passo no fio.
Por isso, talvez a pergunta nunca tenha sido
“quando vou alcançar equilíbrio?”
Mas algo mais íntimo e mais honesto:
com o que eu me apoio para não cair?
o que em mim insiste, retorna, pede passagem?
qual é o meu modo singular
de sustentar a própria falta
sem desaparecer nela?
Porque a vida não se estabiliza.
Ela se atravessa.
Ela se suporta.
Ela se inventa a cada passo.
E no fundo
bem no fundo
não existe equilíbrio.
Só existem
equilibristas da vida.

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