Amor e afeto entre a falta e o desejo
Eu penso o amor menos como abrigo e mais como travessia.
Amar, para mim, nunca foi sobre completude. É sobre saber fazer com a falta, com aquilo que não cessa de não se inscrever por inteiro. O desejo nasce aí, nesse intervalo onde algo escapa, onde o outro nunca pode ser totalmente sabido, possuído ou decifrado.
Eu não amo a partir de uma plenitude. Amo a partir das minhas faltas, das marcas que me constituem, dos restos que insistem, das perguntas que não se resolvem. Há sempre algo do inconsciente atravessando o amor, algo que fala para além do que eu digo.
E talvez por isso eu goste de pensar o amor como chuva.
Porque amar na chuva é consentir em se molhar.
É não buscar um teto para escapar do risco, mas reconhecer beleza justamente no que desorganiza. A chuva não pede controle. Ela cai. Ela atravessa. Ela toca o corpo.
Há amores que chegam como tempestade, deslocam certezas, desarrumam defesas. Há outros que caem finos, como garoa persistente, e vão ocupando o sujeito sem alarde. Em ambos, há desejo.
E o desejo nunca é seco.
Ele escorre pelos intervalos, pelas ausências, pelos silêncios.
Eu aprendi que amar não é pedir ao outro que me salve da falta, mas sustentar com ele o que em mim é incompleto. Não exigir que o outro tampe meus vazios, mas reconhecer que é justamente porque falta que algo pode desejar.
Porque quando tudo se fecha, o desejo morre.
No amor, o desencontro não é acidente, é estrutura. E amar é também suportar isso. Suportar o não saber sobre o outro, a opacidade, o mistério, o que não se deixa capturar.
Como caminhar na chuva sem querer deter as nuvens.
Há afeto onde há risco.
Há vínculo onde há intervalo.
Há amor onde a falta não é negada, mas compartilhada.
Eu penso que amar é permanecer, mesmo molhado.
É continuar quando a chuva expõe fragilidades.
É não recuar quando o afeto deixa de ser ideal e se torna trabalho.
É fazer do desejo uma ética.
Porque o amor não me parece ser encontrar quem me complete.
Me parece mais caminhar com alguém sob a chuva, sabendo que nenhum corpo abriga totalmente o outro, mas que ainda assim há calor no encontro.
E talvez seja isso que me toca na psicanálise do amor:
não amar apesar da falta,
mas amar por causa dela.
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