Príncipe Branco com Pele de Preto

Chamam de príncipe

mas cobram que ele esqueça o próprio chão


querem a pele

sem o peso

o ritmo

sem o tambor que o sustenta


querem o corpo negro

vestido de gesto branco

um roteiro limpo

sem falta

sem história que atravesse o desejo


ele aprende cedo

ser desejado não é ser aceito

é ser moldado


seja forte mas não bruto

seja sensual mas não vulgar

seja negro

mas não tanto assim


no consultório invisível do mundo

o olhar do outro lê seu corpo

como se fosse sintoma


ele vira projeto

um negro que deu certo

como se existir não fosse esforço


as mulheres o querem potência

mas o corrigem como desvio

pedem firmeza

mas recusam a ferida

pedem presença

mas não suportam o que nele transborda


querem um homem preto

com alma de playboy

sem conflito

sem trauma

sem memória


mas o corpo fala


e quando fala

já não é príncipe

é ameaça


enquanto isso

o homem branco erra

e ainda assim é humano

cai

e ainda assim é compreendido


sua falta vira profundidade

a do negro vira falha


há uma brancura que se impõe como ideal

e uma negrura empurrada para o real

aquilo que insistem em não ver

mas nunca deixa de existir


ele segue

entre o desejo de ser amado

e a exigência de ser outro


príncipe branco com pele de preto

é um pedido impossível


amar o negro

sem suportar a negrura


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