O Justo Não se Justifica
Há um silêncio
que fala mais alto
do que qualquer defesa.
Quem precisa convencer o Outro
ainda negocia com a falta,
ainda pede um lugar
na linguagem do desejo alheio.
O justo não coleciona argumentos.
Habita o risco
de sustentar o próprio ato.
Porque o desejo,
quando encontra sua verdade,
não implora absolvição.
A culpa fala demais.
O medo produz discursos intermináveis.
O narcisismo exige testemunhas.
Mas há quem caminhe
sem transformar cada passo
em um tribunal.
Nem toda acusação merece resposta.
Nem todo olhar merece explicação.
Nem toda ausência de defesa
é sinal de fraqueza.
Às vezes,
é apenas alguém
que compreendeu
que o sujeito não se constitui
naquilo que diz de si,
mas naquilo que sustenta
quando as palavras já não bastam.
Como Xangô,
não confunde justiça
com a necessidade de vencer discussões.
A pedra permanece pedra
mesmo quando o vento
tenta mudar seu nome.
Quem carrega o machado da verdade
não desperdiça sua força
respondendo a cada voz.
Sabe que o tempo
é também um juiz,
e que a justiça
não precisa de espetáculo
para cumprir seu destino.
O justo não se justifica.
Ele suporta
que o Outro fale.
E continua caminhando.....

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