Agora Eu Escolho

Havia um lugar para ser escolhido

e eu demorei a entender

que alguns lugares parecem ter dono

antes mesmo de alguém chegar.


Eu era o moleque magro e fraco

invisível na esquina

feio para os olhos que aprenderam

a desejar determinados corpos

pobre em uma cidade

onde quase tudo tem preço

e preto em uma sociedade

que ainda ensina o corpo negro

a pedir licença para existir.


Talvez tenha sido ali

que nasceu a pergunta

que atravessou minha infância

e chegou à vida adulta:


O que preciso ser

para que alguém me escolha?


Eu não sabia falar de falta.

Então tentei preenchê la com utilidade.


Se não podia ser desejado

eu seria necessário.


Se não podia ser escolhido

eu seria indispensável.


Eu faria mais.

Entregaria mais.

Suportaria mais.


Talvez porque o inconsciente

tenha encontrado uma forma possível

de negociar com o desejo do Outro:


eu sirvo

logo posso ficar.


Mas nem sempre funcionou.


Vieram os empregos

que não me escolheram.


Vieram pessoas

que também não ficaram.


Vieram portas fechadas

e aquela velha sensação

de que talvez houvesse algo errado

com o meu corpo

com a minha história

com aquilo que eu era.


E havia as meninas.


Eu também queria ser escolhido por elas.


Queria ser aquele olhar correspondido

aquele corpo desejado

aquele homem que alguém escolhe

sem precisar explicar por quê.


Mas muitas vezes não fui.


E uma parte de mim

aprendeu a transformar rejeição

em diagnóstico.


Como se o desejo do outro

pudesse determinar meu valor.


Talvez porque faltasse um pai.


Faltasse uma presença

que dissesse ao menino

que ele não precisava conquistar

o direito de existir.


Então cresci sozinho diante das feras.


Eram muitas.


A pobreza.


O racismo.


A violência.


A solidão.


A rejeição.


A sensação de estar sempre

um pouco fora do lugar.


Foram mil chances de morrer.


Nem todas tinham armas.


Algumas tinham palavras.


Algumas tinham portas fechadas.


Algumas tinham olhares.


Algumas tinham a ausência

de quem deveria ter ficado.


E algumas eram ainda mais silenciosas:


aquela morte pequena

que acontece quando alguém passa tanto tempo

tentando ser aceito

que esquece de perguntar

o que realmente deseja.


Eu sobrevivi assim.


Tentando ser escolhido.


Tentando ser útil.


Tentando provar.


Até que um dia

a psicanálise me colocou diante

de uma pergunta diferente:


E se o problema não for

não ter sido escolhido pelo Outro?


E se a questão for

eu nunca ter aprendido a escolher?


Talvez tenha sido aí

que comecei a voltar para mim.


Estudei.


Escutei.


Sofri.


Pensei.


E aquele menino

que um dia parecia não ter lugar

se tornou psicólogo.


Talvez exista alguma coisa profundamente simbólica nisso.


O menino que queria ser visto

passou a trabalhar com aquilo

que permanece invisível.


O desejo.


A falta.


O abandono.


O trauma.


O sintoma.


O inconsciente.


Passei a escutar nos outros

aquilo que durante muito tempo

eu não conseguia escutar em mim.


E comecei a entender

que meu sofrimento não nasceu apenas dentro de mim.


Havia uma história racial atravessando meu corpo.


Uma sociedade que produz lugares

e distribui quem pode ocupá los.


Uma sociedade que olha para determinados corpos

antes de olhar para os sujeitos.


Eu não era simplesmente

um menino que se sentia inferior.


Eu também era um menino negro

aprendendo a sobreviver

em uma estrutura que muitas vezes

já havia decidido

quanto meu corpo deveria valer.


E ainda assim

havia uma estrela.


Pequena.


Teimosa.


Quase invisível.


Uma estrela da periferia

brilhando à luz divina.


Talvez Deus soubesse

o que eu ainda não sabia:


que aquele menino

não precisava passar a vida inteira

implorando por um lugar.


Um dia ele poderia construir o próprio.


Agora eu quero entender.


Quero tentar viver a vida.


Não apenas atravessar os dias.


Não apenas vencer batalhas.


Não apenas provar competência.


Quero descobrir o que existe

depois da sobrevivência.


Quero desejar sem culpa.


Quero amar sem implorar permanência.


Quero partir sem acreditar

que fui derrotado.


Quero ficar sem precisar

ser indispensável.


Quero ser escolhido

quando houver escolha mútua.


Mas, sobretudo,


quero poder escolher.


Escolher pessoas.


Escolher caminhos.


Escolher limites.


Escolher amores.


Escolher o lugar onde meu corpo

não precise pedir desculpas

por existir.


Porque durante muito tempo

eu esperei alguém me dizer:


você pode ficar.


Hoje começo a dizer isso a mim mesmo.


E talvez essa seja a diferença

entre aquele menino e o homem que ele se tornou.


O menino precisava ser escolhido

para acreditar que tinha um lugar.


O homem começa a compreender

que ter um lugar

também é poder escolher onde ficar.


E se alguém que um dia caminhou ao meu lado

percebeu que eu parecia viver

mais pela resistência do que pelo desejo,


talvez tenha enxergado algo

que eu ainda não conseguia nomear.


Não era ausência de vida.


Era excesso de sobrevivência.


Eu estava aprendendo a existir

com as ferramentas que tinha.


Hoje, porém,

eu não quero apenas continuar vivo.


Quero conhecer a vida

que existe quando não preciso mais

provar que mereço estar nela.


Quero olhar para aquele moleque

na esquina

e finalmente dizer:


Você não precisava ser escolhido.


Você precisava descobrir

que também podia escolher.


E agora pode.




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