"Ricardo e o Outro: a dificuldade de ser"

Às vezes, ser Ricardo parece um trabalho de tempo integral, sem direito a intervalo.

Porque Ricardo nunca é somente Ricardo.

Antes de acordar, já existe um mundo esperando alguma coisa de mim.

Que eu seja forte, inteligente, sagaz, rápido, eficiente. Que eu saiba o que fazer, pense no futuro, seja responsável e, principalmente, que não erre.

Porque aprendi que, para mim, errar nunca é apenas errar.

Há sempre um Outro olhando.

Um olhar que pergunta se sou bom o bastante, se mereço estar aqui, se fiz certo, se correspondi.

E ser negro também é aprender cedo que existir pode ser uma negociação.

Negociar o corpo, a roupa, o olhar, a fala, o silêncio. Aprender quando ser gentil e quando ser malandro. Quando responder, quando observar, quando ocupar o espaço e quando passar despercebido.

Aprendi a perceber antes, pensar rápido, antecipar. A malandragem não como trapaça, mas como inteligência de sobrevivência.

Só que existe um preço.

Quando sobreviver vira hábito, descansar parece culpa.

E eu continuo.

Porque Ricardo precisa dar conta.

Mas existe uma coisa que ninguém vê quando olha para o adulto: ele também carrega o menino que sobreviveu ao passado.

O passado não passa simplesmente porque o calendário passou.

Há amores que terminaram, mas não terminaram completamente. Há ausências, desilusões, silêncios, pessoas que foram embora e pessoas que ficaram de um jeito que também doeu.

Há a história com meu pai.

Há a família.

Há aquilo que recebi e aquilo que não recebi.

Há perguntas que envelheceram comigo.

E há a sociedade.

O racismo.

Os olhares.

As expectativas.

O corpo registra. A memória registra. O sujeito registra.

Então o passado começa a conversar com o presente.

Uma rejeição pode tocar uma ferida antiga. Um silêncio pode lembrar outro silêncio. Um abandono pode convocar outros abandonos.

Às vezes, eu nem estou reagindo somente ao que aconteceu agora. Estou reagindo também àquilo que ainda não consegui elaborar.

Essa talvez seja uma das maiores dificuldades de ser Ricardo: viver o presente enquanto ainda converso com fantasmas do passado.

E por fora eu continuo funcionando.

Trabalho. Estudo. Sorrio. Respondo. Produzo. Cuido dos outros.

Mas existe uma parte de mim fazendo contas antigas, tentando transformar abandono em explicação.

E talvez essa seja a armadilha da minha própria inteligência.

Eu tento pensar até aquilo que precisava apenas ser sentido.

Quero compreender tudo. Dar nome a tudo. Encontrar uma causa, uma lógica, uma explicação.

Como se entender pudesse me proteger de sentir novamente.

Mas a psicanálise insiste: nem tudo que se repete se resolve pela compreensão.

Algumas coisas precisam ser atravessadas.

Elaboradas.

E talvez amadurecer seja não apagar o passado, mas deixar de entregar a ele o direito de decidir quem eu sou agora.

Porque ser adulto também pesa.

Tem que trabalhar, estudar, ganhar dinheiro, pensar no futuro e construir alguma coisa.

E sonho também custa caro.

Às vezes existe vontade demais para uma vida que parece pequena demais.

A realidade pergunta:

Com que dinheiro?

E o tempo responde:

Quando?

Então preciso sustentar o desejo mesmo quando a realidade apresenta limites.

Tenho fantasias, imagens de futuro, versões de mim que ainda não existem.

Talvez fantasia também seja uma forma de suportar aquilo que ainda não chegou.

Mas preciso voltar para o trabalho, para as contas, para as responsabilidades, para a vida.

E lembro de Dona Maria e Seu Epifânio.

Meus avós.

Porque Ricardo não começou em Ricardo.

Existe uma história antes de mim. Existem ensinamentos que chegaram antes que eu pudesse escolher.

Carrego aquilo que recebi como memória.

Como quem diz:

Eu não esqueci de onde vim.

Talvez por isso eu queira tanto acertar.

Talvez exista uma fantasia silenciosa de que vencer também seja uma forma de honrar.

E então existe o psicólogo.

O profissional que precisa escutar sem invadir, cuidar sem controlar, reconhecer limites, ter ética e não causar danos.

Não transformar minha falta em interpretação.

Não usar o saber como arma.

Não confundir cuidado com controle.

Ser um bom profissional. Um bom colega. Proativo. Disponível. Competente.

Estudar sempre.

Como se o conhecimento pudesse me proteger da possibilidade de falhar.

Mas a psicanálise me ensinou que não existe saber que me torne completo.

Quanto mais estudo, mais encontro aquilo que não sei.

Quanto mais escuto o outro, mais encontro aquilo que não consigo escutar em mim.

Não sou senhor de mim mesmo.

Existe um desejo que insiste.

Uma falta que permanece.

Uma repetição que retorna.

E ser homem também pesa.

Existe uma masculinidade que cobra dureza quando aquilo que eu precisava era colo.

Sou homem. Sou hétero.

E ainda preciso escolher que homem quero ser.

Não ser homofóbico.

Não violentar.

Respeitar as mulheres.

Não transformar masculinidade em autorização para dominar.

Ser firme sem ser cruel.

Forte sem ser violento.

Mas existe uma diferença entre desejar ser bom e precisar ser perfeito.

Às vezes, também reproduzo contradições que minha própria história me ensinou a questionar.

Posso errar.

Posso reconhecer.

Posso reparar.

Posso mudar.

Sem precisar construir uma imagem de homem perfeito.

Também tenho ego.

Tenho vaidade.

Tenho desejo de reconhecimento.

Tenho vontade de ser visto.

Talvez o trabalho analítico não seja arrancar o ego pela raiz, mas perceber quando ele começa a dirigir o carro enquanto me convence de que está apenas no banco do passageiro.

Não quero ser narcisista.

Mas também não quero desaparecer para provar que não sou.

Quero cuidar de mim.

Do meu corpo.

Da minha palavra.

Da minha vida.

Quero andar limpo, cheiroso, arrumado.

Não porque o mundo tenha direito à perfeição do meu corpo, mas porque cuidar de mim também é uma forma de resistência.

E existe ainda o Ricardo do axé.

O homem do Candomblé.

Aquele que precisa honrar seu caminho, seu terreiro, seu pai, sua mãe de santo e sua família de axé.

Existe aquilo que não cabe no currículo.

Existe fé, pertencimento, responsabilidade e segredo.

E existe o conflito de proteger uma parte de mim diante de uma família conservadora e católica.

Às vezes o silêncio é sobrevivência.

Às vezes é cuidado.

Às vezes é tempo.

Mas surge uma pergunta:

Até onde posso me adaptar sem me abandonar?

Porque eu me adapto.

Observo.

Calculo.

Escuto.

Ajudo.

Tento não ferir.

Tento ser justo.

Tento estar presente.

Tento parecer bem.

Mesmo quando, por dentro, existe alguma coisa dizendo:

Eu não sei se estou dando conta.

Porque Ricardo aprendeu a funcionar.

E funcionar não é a mesma coisa que estar bem.

Talvez essa seja a dificuldade.

Ser Ricardo é sustentar muitas exigências dentro do mesmo corpo.

O negro que precisa sobreviver.

O homem que precisa responder por si.

O adulto que precisa pagar suas contas.

O neto que carrega ensinamentos.

O filho que carrega a história do pai.

O sujeito que carrega traumas.

O homem que ainda conversa com amores perdidos.

O psicólogo que precisa cuidar.

O psicanalista que precisa se escutar.

O homem do axé que precisa honrar seu caminho.

O amigo.

O profissional.

O sujeito que deseja, fantasia, teme e erra.

Todos eles moram no mesmo corpo.

No meu corpo.

No corpo de Ricardo.

E existe sempre uma versão de Ricardo cobrando outra versão de Ricardo.

O profissional cobrando o homem.

O homem cobrando o adulto.

O adulto cobrando o negro.

O negro cobrando o homem do axé.

O passado cobrando o presente.

E o presente tentando não repetir o passado.

Lacan talvez chamasse isso de divisão do sujeito.

Eu chamo de:

ser Ricardo.

Mas ser Ricardo não é estar perdido.

É viver dividido e continuar.

É desejar mesmo quando não posso realizar.

É sonhar mesmo quando falta dinheiro.

É pensar no futuro sem abandonar o presente.

É carregar o passado sem permitir que ele escreva sozinho o futuro.

É errar e continuar responsável.

É não saber e continuar estudando.

É cuidar dos outros sem esquecer que também preciso de cuidado.

É ser negro sem precisar ser perfeito.

É ser homem sem precisar ser duro.

É ser do axé sem transformar a fé em performance.

É honrar quem veio antes sem deixar de construir quem ainda vou ser.

Porque Ricardo não é uma resposta.

Ricardo é uma pergunta.

E talvez a dificuldade não esteja em ser todas essas coisas.

Talvez esteja em acreditar que preciso dar conta de todas elas ao mesmo tempo.

Talvez eu possa falhar sem deixar de ser Ricardo.

Posso descansar sem deixar de ser responsável.

Posso mudar.

Posso pedir ajuda.

Posso sentir.

Posso elaborar.

Posso deixar algumas histórias pertencerem ao passado.

Posso existir sem apresentar resultados.

Porque Ricardo não precisa ser tudo aquilo que esperam que Ricardo seja.

Talvez precise apenas continuar sendo Ricardo quando todas essas vozes finalmente se calam.

E então surge a pergunta:

Quem sou eu quando não estou tentando reparar o passado, corresponder ao presente ou provar que mereço o futuro?

Talvez eu ainda não saiba.

E talvez seja justamente aí que Ricardo finalmente comece a existir.....




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