Onde o cuidado ganhou outro rosto

Se a função primeira falhou em um ponto da história, ela não deixou de circular. Apenas encontrou outros corpos. E muitos deles eram femininos.

Mulheres que, sem ocupar o lugar nomeado da paternidade, exerceram algo da sustentação que organiza. Não pela imposição da lei dura, mas pela permanência. Não pelo discurso autoritário, mas pelo cuidado que não abandona.

Foram elas que seguraram o cotidiano. Que perceberam minhas ausências internas antes mesmo de eu conhecê-las. Que sustentaram a casa psíquica quando dentro de mim havia revolta.

Porque houve revolta.

Crescer sem aquele que deveria ocupar o primeiro lugar produz uma ferida que queima. Eu fui um filho atravessado por essa queimação. Questionava. Comparava. Sentia uma espécie de injustiça estrutural. Perguntava, mesmo em silêncio, por que em outras histórias a função se cumpria e na minha havia um intervalo.

Essa revolta me moldou. Durante muito tempo, cada conquista carregava um subtexto silencioso: eu consigo. Mesmo sem você.

Estudei, trabalhei, construí meu lugar no mundo, sustentei responsabilidades sem o amparo direto que culturalmente se espera de um pai. Não houve mão guiando minhas escolhas. Houve tentativa, erro, insistência e uma força que nasceu da própria falta.

Vencer não foi apenas alcançar objetivos. Foi não permitir que a ausência se tornasse destino.

As mulheres que me cercaram foram estrutura quando eu poderia ter endurecido por completo. Elas mostraram que cuidado também organiza. Que limite pode vir do afeto. Que firmeza não precisa ser violenta.

Se houve fúria, houve também acolhimento.

Se houve revolta, houve presença.

Aprendi que paternidade não é apenas biologia. É função. É referência. É alguém que sustenta o sujeito enquanto ele aprende a sustentar a si mesmo.

E, ainda que essa função tenha falhado na origem, ela não deixou de existir na minha trajetória. Ela se distribuiu. Se reinventou. Se encarnou em outros rostos.

Eu fui um filho revoltado, sim. Mas também fui um filho que transformou a revolta em movimento. Que fez da ausência um impulso. Que construiu lei interna onde não recebeu lei externa.

Hoje eu sei que não precisei ser escolhido para me tornar inteiro. Eu me escolhi.

E há algo que agora precisa ser dito.

O homem que me deu o nome já não habita este mundo. Seu tempo aqui se encerrou.

A notícia chegou como confirmação de algo que, simbolicamente, já estava elaborado há anos. Não houve surpresa estrondosa. Houve silêncio.

Silêncio diante do fato de que o impossível não se realizará.

Silêncio diante da certeza de que nenhum encontro tardio acontecerá.

O que se encerra agora é a possibilidade concreta.

E, ainda assim, eu permaneço.

Não como filho de uma ausência, mas como sujeito que atravessou a falta, a revolta, o cuidado recebido de outros, e construiu sua própria posição.

Ele partiu do mundo.

Eu permaneci na vida.

E sigo.









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