Entre o xadrez e o dominó
Não sei se é jogo ou experiência.
Talvez estejamos todos improvisando
diante do desejo,
tentando encontrar alguma lógica
naquilo que insiste em nos escapar.
Movemos peças como no xadrez,
calculamos palavras,
antecipamos gestos,
ensaiamos estratégias
para não ficarmos tão expostos
ao imprevisto do encontro.
Mas o outro não é um tabuleiro
que se deixa decifrar.
Há sempre uma casa desconhecida,
um movimento que não previmos,
um desejo que não conseguimos acessar.
E, como no dominó,
basta uma peça fora do lugar
para que toda a sequência imaginada
precise ser refeita.
Talvez nossas artimanhas
sejam tentativas de contornar
a angústia de não saber.
De não controlar o próximo movimento,
de não conhecer o pensamento
que se esconde por trás de um silêncio.
Entre o que digo
e o que você escuta,
algo se perde.
Entre o que sinto
e o que consigo dizer,
algo permanece sem nome.
A comunicação encontra sua barreira
justamente onde imaginamos
que as palavras deveriam nos aproximar.
E então interpretamos.
Preenchemos lacunas,
inventamos intenções,
tentamos fazer do silêncio
uma resposta que nos tranquilize.
Mas o inconsciente não obedece
às regras que estabelecemos.
O desejo não se revela
apenas porque perguntamos.
Talvez seja por isso
que nenhum encontro tenha roteiro,
que nenhuma estratégia garanta
o movimento seguinte.
No xadrez, tentamos prever o outro.
No dominó, tentamos encontrar
uma peça que se encaixe.
Mas, entre nós,
nem sempre existe encaixe,
nem sempre existe previsão.
Existe o desejo,
a falta,
a palavra que falha
e o sujeito que nunca se entrega
por inteiro ao conhecimento do outro.
E talvez a experiência
seja justamente essa:
continuar jogando
sem a garantia de vencer,
sem a ilusão de controlar,
aceitando que o outro
não é uma peça do nosso jogo.
É alguém que também improvisa,
também deseja,
também tenta dizer
aquilo que nem sempre consegue saber
Continuemos.......
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